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sexta-feira, 3 de novembro de 2017

On novembro 03, 2017 by Unknown   Seja o primeiro a comentar!

M. Lemos, para o blog F de Futebol

O futebol é um esporte de paixão. Não é atoa o ditado rezar que “futebol, política e religião” não se discutem. Bem, na verdade discutimos e muito tais assuntos, mas quando o ‘bicho pega’, em vez de sair na mão com seu melhor amigo é melhor lembrar da sabedoria dos mais velhos...

Algumas vezes essa paixão pelo futebol leva as pessoas a atitudes extremas, seja para o bem ou para o mal, e não poucas vezes transforma pessoas comuns em verdadeiros heróis. Foi exatamente isso o que aconteceu com o inexpressivo time ucraniano FC Star, em 9 de Agosto de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial.

Naquele dia uma importantíssima partida entre invasores e conquistados se desenrolava. Para os nazistas era uma chance de demonstrar que seus atletas – supostamente arianos e de sangue puro - eram muito superiores aos demais. E os racistas pareciam ter razão, uma vez que seu time, o Flakelf, formado por soldados da Luftwaffe, já começou vencendo os Star por 1 à 0 – na base de muita canelada e com a ajuda do árbitro. Aliás, por toda a partida o apito ficou do lado do time de Hitler, ignorando todas as faltas cometidas pelos alemães, inclusive as mais violentas, e não perdoando o menor deslize por parte dos ucranianos.

Mas nem o apito amigo pode impedir que os Start mostrasse seu futebol para os nazistas. Numa jogada de velocidade, Kusmenko driblou o zagueiro alemão e correu para a meia-lua, quando foi puxado pela camisa para trás. A torcida ucraniaca foi a loucura quando percebeu que o juizão simplesmente ignorou a falta. Kusmenko não se deu por vencido, mantendo-se em movimento, dominou a bola, deu um salto sobre o zagueiro que veio em sua direção num covarde carrinho e chutou direto na gaveta. Caixa! A torcida do país invadido simplesmente enlouqueceu. Alguns comentaristas chegaram a dizer que aquele grito de gol era como o grito de um povo que se libertava de seus opressores.

James Riordan, autor do livro Match of Dead (“O Jogo da Morte”), afirma que “o estádio estava cercado por soldados armados e cães. Os assentos foram ocupados por soldados nazistas e mercenários ucranianos. O resto do espaço foi preenchido por velhos, mulheres e crianças, forçados para testemunhar a vitória germânica”. Tudo favorecia o time dos pilotos nazistas. Além disso, os jogadores do time ucraniano não pareciam estar em sua melhor forma, uma vez que muitos viviam clandestinamente, sendo que alguns estiveram presos até recentemente, e haviam formado o FC Star a pouco tempo e sem dispor de nenhuma estrutura, e cuja única oportunidade de treino se dava a noite, no fundo de uma padaria onde alguns deles trabalhavam durante o dia. Não passavam de gente comum. Mas, gente comum apaixonada por futebol.


Humilhando nazistas!


Depois de alguns treinos os rapazes ucranianos resolveram disputar o campeonato local que os nazistas organizaram. Seu uniforme seriam as camisas vermelhas que dois deles, Trusevich e Putistin, encontraram em um depósito abandonado. Trusevich dizia que o futebol era sua arma, e que os nazistas jamais derrotariam a camisa vermelha. E ele estava certo! No campeonato local, escreve o colunista Fernando Moretti, “o Start só aplicou goleadas: 6 a 2 na Guarnição Húngara; 11 a 0 na Guarnição Romena; 9 a 1 nos Operários da Estrada de Ferro; sempre encantando o público com seu futebol estiloso. Então veio um convite para enfrentar um time militar alemão, o PGS. Venceram por 6 a 0”.

Os nazistas, que se achavam a raça superior, estavam sendo humilhados, e os ucranianos comemoravam cada vitória, que também significava mais motivação para aqueles que ainda queriam lutar contra os invasores.

Massacrados em campo, os nazistas resolveram colocar em campo o seu melhor time, o Flakelt, formado, como já comentado, por soldados da poderosa Luftwaffe. O nome do time já dizia tudo, “11 à prova de balas”. Porém, os nazistas sofreriam mais uma humilhaçao, perdendo para os Star por nada menos que 5 a 1. Não poderia haver humilhação maior para o orgulhoso exército alemão: seu poderoso time massacrado pelo ‘time da padaria’. Então, exigiram uma revanche. E é isso que nos leva de volta ao famoso Jogo da Morte.


O jogo da morte!


Time do Star, formação que enfrentou os nazistas!

O jogo da morte estava empatado, depois da performance fenomenal de Kusmenko sobre o zagueiro alemão. E o pequeno estádio, hoje abandonado, estava tomado por uma emoção inenarrável. Será que os nazistas perderiam também a revanche? E se perdessem, como reagiriam contra os jogadores da padaria, e contra a população local? Nenhuma dessas questões ofuscaria a superioridade dos desnutridos ucranianos, que pouco antes do fim do primeiro tempo estufariam novamente as redes nazistas, com um belo gol de Goncharenko, que driblou toda a defesa adversária sozinho! Os nazistas correram para o meio do campo e deram nova partida ao jogol, apenas para ver os ucranianos tomarem a bola e numa arrancada fulminante meterem 3 a 1. O nazistas ficaram desesperados, e a torcia do país invadido enlouquecia zombava de seus invasores. Cadê a superioridade da raça ariana?

Durante o intervalo um homem chamado Gergi Shvetsov, um colaborador dos nazistas, foi ao vestiário do Star com ameaças. Literalmente pediu que eles entregassem o jogo. Junto dele estava também um oficial da temida polícia secreta nazista, a famigerada SS, que insinuou que caso insistissem em ganhar, poderiam sofrer sérias consequencias.

O juizão deixou o ‘pau comer solto’ também no segundo tempo, especialmente quando isso favorecia os alemãos. Ah, vale a pena dizer: o juíz também era um oficial da polícia secreta de Hitler. E o time alemão voltou com tudo, jogando forte e marcando dois gols contra os ucranianos. O placar ficou em 3 a 3. Mas não pode comemorar por muito tempo, já que os Star em apenas dois lances fizeram dois gols, levando o placar a 5 a 3, contra a [suposta] raça superior. Mas a humilhação dos nazistas ainda seria maior: próximo do fim da partida o zagueiro Klimenko driblou toda a defesa dos alemães e driblou também o goleiro, ficando sozinho na cara do gol. No entanto, ao invés de entrar com bola e tudo fez algo inacreditável e humilhante para os nazistas: virou-se e chutou a bola para o meio-campo. O juizão achou melhor terminar o jogo antes de completar os 45 minutos…


O mito e a história


O que acontece após esse jogo? Uma lenda urbana circulou por muito tempo dizendo que os nazistas haviam executado todo o time logo após aquela partida. Inclusive livros foram escritos defendendo essa teoria. No entanto, estudos posteriores revelaram que não foi bem assim. É verdade que quase todo o time ucraniano seria morto, preso ou exilado, mas isso não se deu imediatamente após o Jogo da Morte. Em 1992, por exemplo, Goncharenko – um dos sobreviventes, claro! - pouco antes de morrer negou que o juiz da SS tivesse feito ameaças, mas apenas pedido para que eles entrassem em campo fazendo a saudação nazista, o que eles se recusaram a fazer.

Sabe-se, por exemplo, que em fevereiro de 1943, os nazistas resolveram executar um terço dos prisioneiros do campo de Siretz, e dentre os mortos estariam Ivan Kuzmenko e Nicolai Trusevich. Ao ser atingindo pelo tiro, Trusevich caiu, levantou-se e gritou: “O esporte vermelho jamais morrerá!”. Então caiu morto, vestindo orgulhosamente sua camisa vermelha e preta de goleiro. Sua história foi contada por companheiros de time que conseguiram fugir do campo e se abrigar sob a proteção do exército soviético. Os primeiros relatos sobre o que aconteceu com aqueles jogadores foram publicados pelo jornal soviético Izvestia, que não contou nada sobre o Jogo da Morte. A história viria a publico apenas em 1958, quando Petro Severov publicou no jornal Evening Kiev um artigo chamado “O Duelo Final”.

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